O amor ainda existe?

E, então, ela me disse que o amor não existia e eu concordei, também estava pensando igual a ela naquele momento. Mas o tempo passou e eu percebi que estávamos erradas. Como muitos de vocês, eu já acreditei muito no amor e desacreditei demais nele também. Hoje me encontro num lugar chamado meio-termo, que me diz com clareza que ele pode existir ou não.

Deixo claro que não estou falando do amor que a maioria de vocês, como eu, teve, tem ou até terá ainda. Muita gente faz o maior ‘mimimi’ quando eu digo que não acredito em amor à primeira vista ou em um que começa do nada, e não entendo o porquê de tanta polêmica.

Mano, tá te fazendo bem? Então, vive essa coisa bonita aí. E me deixa com a minha opinião muito bem formada que diz que o que você sente pelo seu namorado de um ano não tem o mesmo nome do que aquilo que um casal feliz de 35 anos de união sente. Se querem pensar o contrário, pensem. Não tô subestimando o que você leva no peito, sabe? Só não é uma opção eu subestimar meu conceito de amor também.

Mas esse texto é pra falar do ‘grande amor da vida’… Que levou meus avós passarem pelos maiores perrengues juntos e felizes, que fez minha vó viver com meu vô em harmonia até ele morrer e que faz os olhos dela brilharem até hoje quando falamos dele, mesmo que sua memória não seja mais a mesma há anos…

Que amor lindo é esse que supera o tempo, os desgastes de uma vida nada fácil, a morte e até a perda progressiva da memória? É sobre a existência desse amor que tô falando.

‘Será que ele ainda existe?’ Por vezes me perguntei ao ver a quantidade de namoros se desfazendo por motivos toscos, os eternos rolos de amigas que nunca progrediram, a frequência com que as pessoas trocam de namorados como quem troca a cor do esmalte e o número crescente de divórcios entre os conhecidos dos meus pais… Quando se faz uma análise, chega a ser assustador o quanto esse tipo de amor mais deixa de acontecer que, de fato, acontece por aí.

Quantos amores eternos dos seus amigos duraram 5 anos ou nem isso? Não quer dizer que não foi bonito e que não foi real, que um estava enganando o outro ou algo do tipo, quer dizer que chegou um momento em que o que sentiam não sobreviveu mais ou ficou agonizando por muito tempo, sem prognóstico de cura. Qual será, então, o grande segredo dos casais que seguem por décadas se amando?

O que quero dizer é que toda relação de mais tempo e mais profunda, vai passar por coisas parecidas, que nem sempre são legais. Não existe só a parte boa. A parte chata vem junto no pacote. É por isso que acredito no amor construído, que vem bem depois de uma euforia inicial.

Porque não tem como você conhecer uma pessoa por completo em meses de convívio e se não a conhece totalmente, como pode amá-la? Quantas vezes vários de nós só conheceram, de verdade, alguém quando essa pessoa saiu de nossas vidas? Amar quem nossa cabeça criou a partir de primeiras impressões é muito fácil, mas continuar amando quem foi desconstruído após anos e anos de relacionamento é foda. 

O fato é que o que valia para o amor antes, hoje não vale mais. O jogo atualizou e as regras mudaram pra caralho. E muita coisa evoluiu, é óbvio. Nunca abriria mão das conquistas femininas, por exemplo, para viver um amor que durasse a vida toda. Não só de pão ou amor vivem o homem e a mulher. Porém, pensei nessa questão e percebi uma constante…

Eu sempre falo que pra existir amor precisa existir vontade… E muita vontade. Porque se o outro for diferente de você, você terá que ceder às vezes para vê-lo feliz e ele também por você. É preciso muita vontade pra se ter respeito pelas diferenças. E se os dois forem muito iguais, também terão que ter jogo de cintura para que haja novidade no relacionamento, para que não fiquem previsíveis em excesso e para que não percam a individualidade.

Com o tempo, tanto as diferenças quanto as semelhanças tendem a ficar mais evidentes e complicar o que antes era simples. O que era um ‘defeito’ charmoso no começo torna-se algo insuportável, se o respeito diário não for trabalhado.

Quando a rotina se apresenta na forma de discussões, opiniões divergentes, mau humor matinal, contas, manias, imperfeições, tristezas, doenças e pequenas grandes chatices, só fica quem escolhe ficar, ou melhor, só fica quem ainda continua com vontade de ficar…

E pra existir essa tal vontade que tanto falo precisa haver uma coisa que antigamente os casais tinham muito: A crença na relação. Eles entravam nela pra fazer dar certo, pra consertar os erros no caminho, pra durar… Eu sei que existia a parte negativa que fez – e ainda faz – de muitos casais infelizes por toda vida por continuarem algo de aparências. Mas também fez outros afirmarem que valeu a pena ter insistido em cultivar o amor que tinham plantado dentro do coração lá atrás. 

O que quero dizer é que se você não acreditar no amor, como fazemos muito, fica bem mais difícil de acontecer pra gente. Por quê? Porque quando duvidamos de tudo e insistimos em permanecer com os dois pés atrás pra todos que se aproximam, tendemos a ter relações que não chegam a acontecer de fato, pois uma ou nenhuma das partes entrou nela por inteiro. Ou teremos vários relacionamentos que não conseguem evoluir, que fracassam nos primeiros obstáculos mais sérios.

O que vivemos hoje é uma pandemia de descrença. Por medo, receio, orgulho, cansaço ninguém mais acredita no amor como deveria, logo, ele deixa de existir. Às vezes por um, outras tantas pelos dois. Quem nunca deixou de sentir ou viveu algo pela metade por medo? Você não? Eu já.

Quando me dizem que aquele amor dos meus avós não existe mais ou eu mesmo me questiono, me lembro da existência do Papai Noel. Sim, ele mesmo. Todo mundo diz que ele não existe, a maioria das crianças crê porque disseram a elas o contrário. Pra elas, ele existe. Pros adultos, não. Aí eu te pergunto: Quem é mais feliz? O adulto maduro que sabe que isso é besteira ou a criança fantasiosa contente acordando no dia 25 de dezembro pra pegar o presente que o bom velhinho deixou? Pois é…

O amor da vida toda vai acontecer pra alguns e pra muitos outros não. E todos, os que ficarão 80 anos com o mesmo alguém ou os que tiverem vários durante a vida, serão muito felizes – se quiserem ser –, assim como terão suas tristezas inevitáveis. Todos perdem e todos ganham por aqui. 

Só o que sei é que não sei de nada, mas se pudesse escolher preferiria sentir o que causa a alegria que vejo no rosto da minha sobrinha no Natal e o brilho nos olhos da minha vó ao falar do meu vô depois de quase 70 anos do casamento.

Vai ver  o amor verdadeiro é realmente como o Papai Noel… Não existe pra grande maioria, mas insiste em viver no coração de quem acredita nele.

Sabe aquilo que dizem que quando a gente acredita mesmo em algo, acontece? Talvez o mundo só esteja mesmo acreditando muito pouco. (Jessica Delalana)

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