Depois do Dia dos Namorados

Depois dos comerciais inspiradores na TV. Depois das lojas do centro lotadas de corações vermelhos. Depois dos presentes comprados. Depois do jantar romântico. Depois da noite inesquecível. Depois das fotos lindas com legendas fofas e clichês. Depois do Dia dos Namorados… O que fica?

Eu nunca fui muito ligada com datas. Falo como alguém que já passou o Dia dos Namorados solteira, namorando e até indefinida. É claro que apesar de ser uma data comercial, é bacana reservar um dia para se dedicar ao seu amor, caso tenha um e do seu jeito. Porém, não pira. 

É interessante presentear na data? É. É legal poder ir a um lugar diferente no dia? Também. É bonitinho uma mensagem toda apaixonada nas redes sociais? Idem. Mas não é essencial. Não é o mais importante. Porque isso tudo não tem que ser o fim, nem o meio, tem que ser mais um entre todos os outros pequenos detalhes do cotidiano, entende? Só sente mesmo falta de todo o resto quando falta o principal…

Sabe o que realmente conta? Quando você passa numa vitrine de padaria e compra a bomba de chocolate que ela tanto ama. Quando você leva na cama o analgésico e a água no dia que ele está gripado. Quando você espera paciente ela terminar de se arrumar. Quando os dois dividem as tarefas domésticas pra não sobrecarregar o outro. Quando ele vai no cinema ver aquele filme que você tanto gosta. E ela vai no show da banda que ele é fã e ainda se esforça pra cantar as letras. Quando você torce pra dois times, o seu e o da pessoa, quando o seu não estiver em campo.

Quando você escreve uma carta num dia incomum. Quando ele lembra aquela sua história de infância, sabe seu prato preferido, vibra pelas suas conquistas individuais. Quando você sai mais cedo pra deixar tudo arrumado pro seu amor. Quando pede ajuda pros amigos dele pra armar uma surpresa numa terça à noite. Quando você paga a conta inteira daquele lugar mais caro porque o outro está desempregado. Ou quando dividem o miojo pra economizar na compra do piso do banheiro. Quando os dois juntos conseguem dar aquele passo importante. Até mesmo quando se revezam pra acordar se existir um bebê chorando no quarto ao lado.

Quando você oferece o colo pro outro chorar as mágoas. Quando permanece com a mesma admiração depois da meia surrada, do sutiã não tão sexy, da bebedeira, da doença, do mau humor, dos momentos ruins. Quando acorda de manhãzinha pra dar carona pra ele até aquela cidade longe. Quando reza pra que ela consiga a vaga. Quando sente orgulho mesmo quando o outro fracassa.

Quando você ensina com dedicação os passos de uma dança ou de uma manobra no videogame. Quando um entende se o outro não estiver muito a fim de fazer algo. Quando respeitam que os pensamentos se contrariem. Quando o espaço de cada um é preservado porque existe individualidade.

Amor não é comprar presentes caros, fazer declarações num auto-falante, dizer que ama a todo momento, mandar uma tonelada de flores pro apartamento dela, embrulhar um carro num laço vermelho, bolar uma surpresa a nível de Hollywood, bancar um hotel 6 estrelas nas férias em Abu Dhabi. Não é achar que o outro é perfeito, concordar com tudo, aceitar qualquer coisa, não ter opinião, se isolar dos amigos, excluir a vida social um do outro.

Amor não é exibir num outdoor e nem guardar num potinho. Amar é abrir o pote, voar juntos, sair separados e no fim ter vontade de voltar pro mesmo lugar onde o outro esteja. Se não existe essa saudade de retornar não está certo. Mas se quer prender e privar o outro de ter suas próprias experiências também está totalmente errado. Amor não é desleixo, e muito menos posse. 

O amor parece mais com o universitário que economiza pra ir naquele festival do que com o Rei do Camarote carregando a bebida que pisca e rodeado de gente parecida. Afinal, é o primeiro que vai chegar em casa com aquele brilho nos olhos e dar valor de verdade pro que conseguiu. O amor é assim. Valorizar cada coisinha pequenina… É simples, é dia de semana, é louça na pia, é esquisito, é difícil, às vezes até sujo…

Claro que ele acontece em todas as classes e que é ótimo propiciar conforto a quem se ama. Mas amar demanda mesmo sair da zona conforto, respeitar chatices do outro, as suas e as duas somadas, aceitar alguém diferente de você e fazer ter sentido peças que nem são do mesmo quebra-cabeça, mas que meio tortas se encaixam e formam algo muito mais bonito e jamais visto e pensado antes. 

O que conta mesmo é o que vem depois. Depois de tudo, é amor. O que vale mesmo é quando o Dia dos Namorados é apenas mais um dos dias em que se acorda e decide amar mesmo depois de tudo. 

É por isso que decidi fazer esse texto depois… Foi pra te dizer: O que você tem feito pela sua relação nos dias comuns, nas horas comerciais, na segunda dia 27? O que você tem feito depois de anos, rotina, rugas e quilos a mais? Isso é amor. Quando se tem isso, se tem todos os motivos do mundo pra comemorar… No dia, depois e em qualquer outra data do ano. (Jessica Delalana)

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