Eu, que nunca amei você

Eu, que nunca amei você, te vi virar as costas e dar o primeiro passo, depois o segundo e, então, o terceiro. Eu intuí que era pra valer. Tinha algo diferente no modo como você caminhava. Antes de ir, você já tinha ido.

Eu, que nunca amei você, achei que não sentiria nada. Mas senti… um aperto estranho no peito. Justo eu, que nunca amei você.

Eu, que nunca amei você, cansei de te dizer que era só passatempo e te vi brigando sozinho várias noites pra deixar claro que não tinha paciência para os seus dramas.

Eu, que nunca amei você, inúmeras vezes pensei que seria melhor estar só. E me achava culpada cada vez que não conseguia sentir o mesmo que você demonstrava.

Eu, que nunca amei você, tentava partir, mas desistia quando você dizia que eu era covarde e que estava com medo de me apaixonar. Eu, que nunca amei você, acabava ficando mais um tempo só pra provar que você estava errado.

Eu, que nunca amei você, de repente, estava ali… sozinha e poderia, finalmente, estar mais leve por não ter o peso das suas expectativas nas costas.

Eu, que nunca amei você, saí aquela noite. Dancei e me diverti. Só estranhei pensar em você mesmo no meio daquela agitação toda.

Eu, que nunca amei você, fui embora da festa cedo e, depois do banho, pensei ter visto seu rosto no espelho do banheiro. Eu, que nunca amei você, fui dormir pra passar… Acordei e não passou.

Eu, que nunca amei você, passei a te ver não apenas nos reflexos, mas nas músicas, nos filmes, nos carros iguais ao seu parados nos semáforos e no lado esquerdo da cama no meio da noite…

Eu, que nunca amei você, me policio toda hora pra não te ligar e contar qualquer coisa besta que aconteceu comigo. Eu, que nunca amei você, não vou mais aos lugares que a gente ia.

Eu, que nunca amei você, ando irritando meus amigos de tanto falar das suas histórias. Eu, que nunca amei você, noto um buraco no estômago quando algum estranho diz o seu nome na rua.

Eu, que nunca amei você, tive um ataque de fúria e atirei na estrada o pendrive que você esqueceu no som do meu carro.

Eu, que nunca amei você, há um mês não consigo detestar tanto mais os domingos. Eu, que nunca amei você, também não adoro com a mesma intensidade as sextas.

Eu, que nunca amei você, vivo me interessando por caras parecidos. Eu, que nunca amei você, me pego torcendo para que você ainda se importe.

Eu, que nunca amei você, ando te amando com bastante frequência. Eu, que nunca amei você, sempre estive errada.

(Jessica Delalana)

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